1986 - Austrália

Ao contrário das horríveis condições do ano anterior, em que o terreno dificultou bastante a progressão dos participantes, a edição de 1986 do Camel Trophy conseguiu percorrer uma das maiores distâncias jamais percorridas pelos diversos eventos, no mais curto espaço de tempo. Foram 14, as equipes que ligaram Cooktown a Darwin, totalizando 3200km, em apenas 13 dias.


A partida deu-se em Cooktown, na costa do Pacífico, com vista para a Grande Barreira de Coral, tendo percorrido uma média de 250km por dia, durante as duas semana de duração da prova. Apesar desta média, mantiveram-se as dificuldades para os participantes: clima quente e seco; risco de desidratação; acidentes; crocodilos de até sete metros nos rios que tinham de ser atravessados; serpentes que se refugiavam dentro da roupa, durante a noite. Isto numa zona com a média de 2 furacões por ano, vegetação selvagem e sólidos arbustos cujas raízes crescem por cima do solo. Basta percorrer alguns KM para entender a classificação de “tierra inóspita” proposta pelo capitão Cook.

Os estreantes desta edição foram o Reino Unido, Malásia, França e Austrália. O processo de seleção também ficou mais difícil devido aos inúmeros inscritos.

Agora os brasileiros a embarcarem nessa aventura, eram Leonardo Blume e Rodolfo Ramina

Outra vez era destaque a presença feminina entre as equipes.

Os veículos escolhidos voltaram a ser o Land Rover 90, para os participantes, e os Land Rover One Ten, para as equipas de apoio.


A expedição se reuniu em Cooktown com todos os seus integrantes dispostos a conduzir seus veículos até o seu destino final.

O primeiro estágio é o posto de Laura, seguindo-se então para Palmerville. Logo nos primeiros 40 km, 80% do comboio separa-se do grupo líder, quando um veículo esquece de esperar pelo seguinte numa bifurcação da estrada - o que leva todo restante do grupo a seguir na direção errada -.

Com a ajuda dos habitantes, logo o comboio está na direção correta novamente.

Após um leve e rápido almoço, os participantes seguem Bob e Patrick L'Excellent - orientador do Camel Trophy naquela época - através de uma rota alternativa para Palmerville e em seguida May Town. Nesta etapa, duas tarefas seriam executadas. A primeira prova é o cruzamento de um rio contra a correnteza, atravessando sua profunda garganta e depois subindo o seu curso. Os primeiros - e únicos - que conseguem empreender tal tarefa são os competidores da Australia; os Belgas, a equipe de filmagem, os mecânicos e até o juiz ficam encalhados.

Na manhã seguinte, uma difícil e inclinada colina de 500m testa as habilidades fora de estrada dos pilotos. Com apenas alguns segundos de diferença, a equipe suíça marca o melhor tempo.

Logo, a temperatura alta começa a afetar alguns competidores e, em direção ao terceiro estágio, Ignácio Aguirre, membro da equipe espanhola sofre desidratação. Seu colega de equipe Sergio Klein, apesar de um desempenho excepcional, perde os pontos da equipe, o que afeta sua classificação na somatória geral dos pontos.

O comboio continua sob poeira pesada e altas temperaturas. Agora o comboio precisa atravessar o Palm River, situado na metade do caminho entre Palmmerville e King Junctiom. É necessário todo um esforço de equipe - e é onde realmente o espírito do Camel Trophy faz-se sentir pela primeira vez. A travessia é muito difícil e exige muito
planejamento, sangue frio, trabalho árduo e claro, um bom guincho . Leva aproximadamente 1 hora antes que o primeiro veículo atinja o banco de areia que existe no meio do rio. Entre esta ilha e a outra margem do rio existe há um profundo atoleiro. Os homens trabalham noite adentro, puxando os veículos do banco de areia e guinchando-os para fora do atoleiro - que a essa altura se tranformou em um charco -, engolindo veículo atrás de veículo.

Alguns exemplos excepcionais de camaradagem partiram das equipes da Austrália, Estados Unidos, Malásia e Espanha que passaram mais de seis horas com lama na cintura. Este espírito de camaradagem ilustra o que realmente significa o Camel Trophy.

Na manhã seguinte a tarefa dos competidores é eles mesmos acharem o caminho para King Junction. Poucos sabem que a trilha não é usada a três estações (o que fez desaparecer vários trechos) e que o trecho final requer muita perícia.

Nisso um veículo de apoio 1.10 quebra uma junta universal no eixo de direção e perde sua tração traseira. Incapacitado para os terrenos mais difíceis com tração dianteira somente, o eixo de transmissão é desconectado e as equipes puxam e empurram o pesado jipe até atingirem King Junction.

Após feito o reabastecimento os participantes continuam em direção a Drumduff de onde seguem para Koollatah, perto do caudaloso rio Mitchell.

A próxima tarefa especial era percorrer um trecho de atoleiros profundos no menor tempo possível. O tempo máximo não poderia exceder a 15 minutos. Neste desafio a equipe suíça fez o melhor tempo. Um dos membros da equipe americana sofreu um ferimento quando o engate rompeu-se na carga máxima e voou em sua direção, ferindo sua coxa. Ele poderia ter ficado seriamente ferido.

Assim que terminou a competição, as equipes exaustas começaram a preparar as jangadas para a travessia dos 24 veículos sobre o rio Mitchell. Isto obrigou a uma paragem de 24 horas e terminou com o “embarque” de cada veículo numa plataforma instável, constituída por duas lanchas Zodiac em paralelo, com um gênero de grades, por onde as rodas dos carros circulavam.

A esta altura, os veículos começavam a demonstrar sinais de uso excessivo; amortecedores quebrados, juntas universais danificadas, pára-brisas trincados, motores superaquecidos. Tudo isso dava bastante trabalho para os mecânicos constantemente em atividade.

Termina a travessia, mas não terminada as surpresas; logo na outra margem do rio tinha início mais uma dura prova. Os competidores teriam seus veículos puxados novamente para dentro do rio até que estivessem totalmente atolados. Depois disso, eles teriam 30 minutos para guinchá-los para fora da maneira preferida por cada participante (detalhe, não havia pontos de fixação para os guinchos!). Soluções diversas foram tentadas. Uma equipe inclusive fez um buraco no meio da areia, enterrou o estepe e tentou usar isso como suporte para o guincho - um desastre total -. Apenas 6 equipes conseguiram ser bem sucedidas na tarefa.

A aventura prosseguiu até Darwin, ponto final da aventura. Muitos dos participantes chegavam arrastados, mas foi sem dúvida mais um fim de sucesso para o evento.

Todas estas peripécias se sucederam sobre o céu Australiano com a presença de um excepcional espectador - o cometa Halley -

 

Em Darwin, os vencedores foram anunciados: Jaques Mambre e Michel Courvallet, da equipe Francesa.

O prêmio “Espírito de Equipe” ficou nas mãos dos Australianos Glenn Jones e Ron Begg.
Cruzamento do rio Mitchell

Chegava o final de mais um Camel Trophy, que resumido nas palavras de um participante: "Escapamos durante alguns dias da monotonia da vida cotidiana e descobrimos em nós mesmos os aspectos que muitas vezes ignoramos. De certo modo é uma vitória de cada um sobre si mesmo"

 

Resumo da edição
Veículos dos participantes: Land Rover Ninety
Veículos de apoio: Land Rover One Ten
Distância percorrida: 3200km em estrada
Equipes:
Alemanha - Wolfgang Marx / Peter Brussing
Australia - Glenn Jones / Ron Begg (Team Spirit Award)
Bélgica - Geoffroy de Liedekarke / Chris Michel
Brasil - Leonardo Blume / Rodolfo Ramina
Espanha - Sergio Klein / Ignacio Aguirre
E.U.A. - Frank Smith / Carl Guffey
França - Jaques Mambre / Michel Courvallet (vencedores)
Holanda - Rob van Leeuwen / Jan Bos
Ilhas Canárias - Jose Robayna / Javier Mena (terceiro lugar)
Itália - Daniele Terzi / Giorgio Albiero (segundo lugar)
Japão - Hidenobu Takeuchi / Yoshinori Kitamura
Malásia - Zaini Shaarani / Tang Fook Leong
Reino Unido - Jerry Gartley / David Scott
Suíça - Willi Forster / Sepp Ulrich

 

Camel Trophy Brasil

(conteúdo baseado em dados coletados em: Camel Trophy Owners Club; CamelTrophy.es, cameltrophyportugal.com; camel-trophy.nl e publicações da época.)

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