1984 - Brasil
Mais uma vez o Camel Trophy foi realizado em nossa terra, e isto por um motivo especial: o Camel Trophy celebrava o seu 5º aniversário. Retornando as origens, de novo os participantes se viam frente a frente com a floresta Amazônica. Desta vez um evento mais maduro e mais preparado tanto em questões técnicas quanto materiais. Esta foi a edição com mais participantes até à data, contando com 12 equipes, cada uma com dois elementos, em representação de 6 países. O veículo escolhido para edição deste ano (tanto para os participantes quanto para as equipes de apoio) foi o Land Rover One Ten, modelo sucessor do Série III e que daria origem ao que é hoje conhecido como Defender. O percurso desta vez se iniciaria em Santarém, nas margens do rio Tapajós, com o comboio avançando a noroeste para chegar a Manaus. Devido a uma temporada particularmente chuvosa naquele ano, o percurso inicial foi impossível de efetuar tendo sido necessário encontrar um caminho alternativo. Essa rota alternativa levaria os participantes mais uma vez a ter contato com a célebre “Auto-estrada das Lágrimas”, no ponto onde a edição de 1980 terminou. Embora aparentemente mais fácil, esse percurso se revelou bastante exigente, obrigando os One Ten e os seus passageiros a atravessarem extensas áreas de lama.
Por três vezes, o andamento da caravana foi interrompido devido a pontes destruídas ou danificadas. Em todas elas, a distância entre as margens era superior a 10 metros, o que demandou muito esforço por parte das equipes, para conseguirem atravessar o rio. Os primeiros problemas surgiram com o rompimento de uma ponte de 10 metros sobre o rio Tapajós, no momento em que os Land Rover atravessavam. Faltou muito pouco para que os veículos, junto com seus condutores, caíssem no rio. Este incidente provocou uma das cenas mais insólitas do Camel Trophy. Pouco depois do mencionado rompimento, um grupo armado de garimpeiros apareceu subitamente em frente ao comboio e acusou seus integrantes de terem destruído a ponte, obrigando os a construir uma nova.
Para essa árdua tarefa foram usados troncos atravessados em cada uma das margens, com a ajuda de cabos de aço reforçado. Entre os troncos foram usadas as pranchas de desatolar para facilitar a passagem dos veículos Outro fato interessante é que num determinado momento um garimpeiro atacado a punhaladas veio ao encontro dos participantes em busca de ajuda. Entretanto o ferido já havia perdido muito sangue e o médico da expedição tentou sem sucesso salvá-lo. Momentos depois ele morreu.
A esta altura já era unanimidade que este era o Camel Trophy mais duro enfrentado até então (e a prova ainda nem tinha chegado à metade). Além das dificuldades do terreno, houve outras às quais
era preciso dar resposta. A organização decidiu que nesta
edição deveriam ser os participantes a reparar os possíveis
problemas mecânicos que atingissem os seus veículos, ao
contrário das edições anteriores, em que podiam
contar com a ajuda de mecânicos especializados, pertencentes às
equipes de apoio. Assim, foram várias as equipes que se atrasaram
algumas horas, mas acabavam por conseguir sempre alcançar a caravana.
A solução veio com uma balsa especial, capaz de penetrar nos igarapés e levar os competidores a outra margem do rio. A essa altura competidores, jornalistas, todos já estavam tomados pelo cansaço. O mormaço sufocante fazia o cheiro de suor mesclar-se com o da selva. As roupas, quais como de pessoas que a meses estavam perdidas na mata. Mas em meio a tudo isso o dinamismo e a força de vontade pairavam sobre todos. Chegada a balsa, o transporte foi feito de 2 vezes devido a sua capacidade. Em Humaitá, primeira parada feita pela caravana, seus organizadores tomaram a decisão de mudar a rota para facilitar o restante da prova. O percurso inicial que era de Humaitá a Rio Branco não podia ser feito graças as fortes chuvas. Optou-se então por uma rota supostamente mais tranqüila - supostamente-. O trecho escolhido foi Humaitá - Manaus. Contudo, àquela altura a escolha que parecia ideal para um tranquilo término de prova se mostrou tão dura quanto qualquer outro trecho já vencido.
A largada se deu às 17:00 horas do dia seguinte. Os veículos mais uma vez partiam rumo ao destino que nos primeiros 150 KM (de "asfalto") parecia ser fácil de alcançar. No entanto com a chegada da noite tudo se revertia. As condições da estrada passavam de razoável para terríveis e a escuridão fazia com que qualquer perigo maior não pudesse ser observado a tempo. Ainda existiam outros obstáculos, que eram os facões altíssimos deixados pelos caminhões e ônibus. Além disso, com a ausência quase total de tráfego, as valetas laterais aos facões apresentavam-se cheias de agua, o que dificultava uma avaliação de profundidade do buraco. Isso, por sua vez, podia ser conseguido apenas "in loco" ou seja, entrando de roupa e tudo. Já nos trechos mais planos, onde além das valetas e dos facões existiam atoleiros menos profundos, a lama era farta e traiçoeira. E assim foi, horas após horas, a caravana do Camel Trophy seguiu vagarosamente pelos restos de estrada. Para se ter uma idéia das dificuldades dos participantes, basta pensar que em uma das etapas da prova passava pela zona de Jacareacanga, lugar onde foram detectados mais de 1000 tipos de malária. Por outro lado, cascavéis, jacarés, piranhas e outros perigosos habitantes da selva amazônica também testemunharam todo esforço que os aventureiros tiveram nesta parte do globo.
O aspecto competitivo da prova manteve-se presente, com 12 provas especiais que obrigavam as equipes a aplicar destreza física, inteligência e velocidade. O desejo de ficarem bem classificados, levou a alguns participantes a cometerem erros, pagos bem caro. Foi o caso de uma das equipes belgas, cujo veículo caiu de uma ponte, quando estavam atravessando a uma velocidade elevada. Também uma das equipes espanholas viu o seu One Ten danificado, quando bateram contra uma árvore, numa das provas especiais. No final, pela segunda vez em três anos, uma equipe Italiana venceu o Camel Trophy, tendo o troféu “Espírito Camel Trophy”, escolhido através de votação pelas equipes restantes e organização, sido atribuído à equipe Alemã constituída por Volker Lapp e Ulrich Schum.
(conteúdo baseado em dados coletados em: Camel Trophy Owners Club; CamelTrophy.es, cameltrophyportugal.com; camel-trophy.nl e publicações da época.) © 2007 Camel Trophy Brasil
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